quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Vamo tê calma, nóis!

“Tenho gosto de lisonjear as palavras ao modo que o Padre Vieira lisonjeava. Seria uma técnica literária do Vieira? É visto que as palavras lisonjeadas se enverdeciam para ele. Eu uso essa técnica. Eu lisonjeio as palavras. E elas até me inventam. E elas se mostram faceiras para mim. Na faceirice as palavras me oferecem todos os seus lados. Então a gente sai a vadiar com elas por todos os cantos do idioma. Ficamos a brincar brincadeiras e brincadeiras. Porque a gente não queria informar acontecimentos. Nem contar episódios. Nem fazer histórias. A gente só gostasse de fazer de conta. De inventar as coisas que aumentassem o nada. A gente não gostasse de fazer nada que não fosse de brinquedo. Essas vadiagens pelos recantos do idioma seriam só para fazer jubilação com as palavras. Tirar delas algum motivo de alegria. Uma alegria de não informar nada de nada. Seria qualquer coisa como a conversa no chão entre dois passarinhos a cantar perninhas de moscas. Qualquer coisa como jogar amarelinha nas calçadas. Qualquer coisa como correr em cavalo de pau. Essas coisas. Pura jubilação sem compromissos. As palavras mais faceiras gostam de inventar travessuras. Uma delas propôs que ficássemos de horizonte para os pássaros. E os pássaros voariam sobre o nosso azul. Eu tentei me horizontar às andorinhas. E as palavras mais faceiras queriam se enluarar sobre os rios. Se ficassem prateadas sobre os rios falavam que os peixinhos viriam beijá-las. A gente brincava no prateado das águas. A mais pura jubilação”

Poesia “Jubilação” de Manoel de Barros.
Do livro “Memórias Inventadas – As infâncias de Manoel de Barros”
Esse livro é maravilhoso, mesmo!

OBS.: Até agora ninguém veio me falar que despretenÇão na verdade é com S e não com Ç, minha idéia não funcionou direito...enfim; ótimo, pois estão todos muito despretensiosos, rs.
Poesia, assim como todas as modalidades de arte, sempre nos toca da melhor maneira possível. A poesia ainda mais, por não estar, na maioria das vezes, em contato direto com a maioria das pessoas. A música e as mídias digitais cada vez mais se integram à vida de cada indivíduo normalmente, mas não de forma natural. Qual é o papel da música hoje em dia? Influencia como na vida das pessoas? E o papel das artes plásticas? Das cênicas? Da literatura? Do cinema? Enfim... Qual é o papel que arte exerce e qual deveria exercer?
Pretensioso, né? Portanto, sem respostas. Apenas indagações e suposições.
Li um artigo um dia desses que falava exatamente sobre o valor que as pessoas dão à música nesses tempos e como tudo isso mudou muito. A primeira impressão que tive foi de ódio, uma raiva inexplicável daquele velhinho pretensioso demais querendo falar mal da minha geração?! Como?! Quem é ele? Deus?
Muitos acharão estranha essa minha sensação porque eu sempre falei que minha geração era medíocre e achava (ainda acho) que fazíamos pouco e falávamos muito, e ainda falávamos sem conhecimento de base, o que é péssimo. Acontece que funciona mais ou menos assim: eu, que estou no meio, faço parte, posso falar... Um ser estranho que não faz parte tem de ficar quieto...É mais ou menos relativo à: faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço....mais ou MENOS; Sempre tive esse pensamento, nas discussões em casa, quando minha mãe\pai dizia: “Não existe mais música como antigamente...” ou “Isso que você ouve não é música...” ou ainda influências de pensamentos de Chico, como “a canção acabou...”. Esse é pouco pretensioso, né? Como diz minha amiga, (achei fabuloso porque ela falou justamente num momento em que se discutia sobre o verdadeiro valor de “Harry Potter” e do “Sítio do pica-pau amarelo” na infância de hoje em dia e do porquê que as crianças gostavam mais do primeiro do que do segundo, e essa minha amiga defendia veementemente e com argumentos originalíssimos, como só ela tem, a saga de “Harry Potter”) do mesmo curso que eu: “Eu sou fã de Chico Buarque, mas sei muito bem quem são os fãs dele.”. Desafiador, né? É.
Fugi do assunto. Voltando ao artigo.
Esse moço em questão escreve muito bem e dá pra perceber que ele entende do que fala e o pior (pior pra mim, que não posso criticar destrutivamente, rs): ele não era pretensioso. O artigo tinha uma página e mexeu muito comigo. Ele argumentava a cada linha e dizia que o rock, no sentido “frente da música pop”, tinha acabado. Na verdade ele via algumas vias de recuperação, mas eram absurdas...Seu argumento principal se fundamenta na idéia de que o rock’n roll do passado funcionava como um nítido artigo de fé, mexia realmente com a vida das pessoas, não era puro entretenimento (era também), mas sim a grande legião que acreditava na mudança do mundo através da música. Essa legião era leal entre si e recebia da parte dos grandes ídolos conforto e inspiração para suas vidas, ou seja, o rock era também uma grande força social. Qual é a representação do rock de massa de hoje em dia? [que fique no ar...]
Quanto aos dias de hoje, o jornalista dizia que as medidas de curto prazo para o sucesso e a falta de interesse do rock de atingir as grandes massas são motivos para toda essa mudança. Discorria também sobre a falta de artistas visionários e da lealdade entre o público jovem da música pop e o rock’n roll, a péssima influência dos sites de relacionamento na vida desses jovens que tomam o tempo e o espaço do rock como arte, ao determinarem quem são seus verdadeiros heróis, deixando o papel da música de lado.
Pensemos.
Sim, é verdade.
Num primeiro momento, negamos. Podemos até pensar: Ah, mas é lógico que não existem artistas visionários, que queiram o reconhecimento do grande público... Pra que? Pra esse tipo de grande público? Esse “povin’o” tosco sem educação, sem instrução? Nunca! Que ótimo que os grandes artistas não pensem nessas pessoas.
Mas esse tipo de pensamento é egoísta demais, é cruel demais.
Se, antes de tudo, não reconhecemos o que está aí exposto para a grande maioria da população como uma arte (e aqui já falo de outros gêneros de arte) de bons resultados, bem trabalhada, que exprime a realidade da sociedade, que alerte o futuro da nação, que mude o mundo e que também se lembre da estética artística (não se trata de estética padronizada), por que não nos esforçamos para mudar tudo isso? O que está faltando pra isso acontecer? Já que a intensidade da “qualidade” virou parâmetro para cultura, já que ouvimos tantas vezes alguém falar: “ah, mas isso é falta de cultura” (olha o absurdo!?!), por quê esses sabichões não vão lá e mostram o que é o “bom” mesmo?
Ambição está escassa no mundo de hoje.
Acho que a raiz de todo esse problema ta na falta de integração entre as pessoas e a arte. Se o mundo mudou, temos de mudar também.
Talvez seja preciso um processo de redimensionamento do verdadeiro e mais importante papel da arte, sem pretensões e a grosso modo: a mudança da sociedade. Sim, ambicioso assim mesmo. A arte é o instrumento que trás a maior dose de sensibilidade ao ser humano, é o grande meio de transformação de todas essas desgraças que a humanidade insiste em construir a cada dia. A música não tem mais o mesmo sentido se não prestarmos atenção na letra associada a melodia e não simplesmente ouvirmos nos momentos de fuga da situação (como num ônibus lotado). Quero deixar claro que não estou falando que a todo instante a arte tem de ser engajada diretamente nos problemas práticos da política e da sociedade. Não, não é isso. Além de precisarmos direcionar a arte também para esses assuntos, podemos nos divertir realmente com as tantas manifestações artísticas, fazer com que elas façam parte de nossas vidas, podemos dar mais importância à arte e nos integrar de uma maneira mais intensa.
A esfera é a da redimensão.
Com todas essas desgraças no Haiti, por exemplo, pude perceber o quanto a união e a força da arte contribuem para o bem, e podem contribuir bem mais. Todos devem saber do projeto “Hope for Haiti now”, que veiculou na MTV brasileira e em outros canais fechados. Foi um call-center de artistas do cinema, conhecidíssimos pelo grande público e de alguns cantores também. Eu nem sabia que ia ser veiculado para TV aberta, quando no dia ligo a televisão e me deparo com a Mary J. Blige cantando uma música belíssima, no melhor estilo Rythm and Blues. Uma cantora fabulosa, que realmente brinca com a voz e emocionando muito com aquela canção e me fez perceber que tudo aquilo, independente de ter ou não muitas jogadas de marketing ou outro jogo de má fé, pra um assunto muito sério, emocionou com o mais puro dos sentimentos e me fez entender qual era a REAL situação do Haiti nesse momento. É tudo muito triste. Essa é também a função da arte e tudo isso está e não está claro na mente das pessoas. A arte supera tudo.
No aniversário de São Paulo, fui ao show do Milton Nascimento, o Bituca. É impressionante como essa cidade é especial, em todos os sentidos. Um presente a presença dele no palco do Pq. Da Independência. E como as pessoas amam e não abrem mão de programas como esse. O Clube da esquina estava quase completo: Flávio Venturini abriu o show, e depois o Lô Borges entrou para cantar com Bituca. Uma noite chuvosa, aquela chuva que não fode nem sai de cima, uma merda. Mas isso nem chegou a atrapalhar de alguma maneira o divertimento das pessoas, que tiraram seus sapatos e ficaram com o pé no barro, na maioria das vezes. E não perderam o pique, era quase uma micareta num show de Milton Nascimento. Impressionante. Ao meu lado, no show, tinha uma senhora que permaneceu em pé, sem tirar os sapatos, quase intacta, das 17h (o horário que cheguei) às 22h (fui embora). Era uma benção ver aquela cena. E quando o Milton entrou, ela foi quase às lágrimas. Uma belíssima demonstração de amor à arte e ao artista. Nada atrapalhou o divertimento dela, nem a chuva, o barro, o calor por debaixo da capa de chuva, nem a microfonia, o péssimo som do microfone do Milton, o atraso da contra-regragem, nem o: “Ei, Kassab, vai tomar no cú”... Nada, em absoluto.
Concluo que já se foi o tempo de experimentação da superficialidade da arte, né? Se é que ele existiu de propósito... Vamos fazer direito isso! É a nossa vez de tentar mudar um pouco.
Ano eleitoral galera!
Aquele parque perto da sua casa que ta parado, vai sair. Aquele posto policial, médico, um centro cultural que você sempre sonhou também vai sair esse ano!
Bora prestar atenção na vida do candidato, em tudo que ele já fez ou deixou de fazer, quais são suas propostas, seu histórico e do seu partido. NÃO VOTEM NO PARTIDO, VOTEM NO CANDIDATO!
Esse site é maravilhoso, aborda todo o histórico do setor público: http://www.fraudes.org/showpage1.asp?pg=178
Enfim...é isso.
Percebam que aquela história de resenha da faculdade era só um pretexto.
Vou demorar pra escrever outro post agora, porque me sinto mais inspirado e mais livre quando estou estudando. Não quero escrever posts superficiais, quero que pensem realmente no que escrevo. Quanta pretensão!

6 comentários:

Anônimo disse...

frazão, parabéns pelo blog, você é muito querido, rs. brincadeira. é assim que se parabeniza?
me comovi com a cena da senhora em pé na apresentação do clube da esquina. sinto não poder ter estado presente e não hesito em dizer que presenciei uma situação muito sublime em dezembro numa certa apresentação de uma certa bethânia. gosto da forma como você compõe o texto e como as palavras fluem "ad infinitum" através dele.
:)

Anônimo disse...

e eu adoro o padre a. vieira!

felipe frazão disse...

Ô querida!
muito obrigado!
Você faz falta aqui nas terras tupiniquins...
beijoss!

Unknown disse...

Gostei muito do seu post,assim como voce eu achei ele pretensioso demais cara. rs
Serio, eu gostei e concordo em alguns pontos no qual voce se refere a arte num papel mais amplo e poderoso que vem se perdendo aos poucos(claro que ainda existe no intimo de muitos, mas pra maioria ela eh algo superficial e subjulgada a ciencia e tecnologia por exemplo.Como diz voce mais ou MENOS!!!por cima!)Enfim,e acentuo o meu prazer na hora "eu conheco os fas de chico" ohh que frase!Vinda de voce ainda! curti.

Estava ouvindo spaceman 3- big city enquanto lia,nao eh da sua laia mas ouca
blahblahblah nao tenho cedilha nem acento algum na configuracao do teclado e...
Tchau seu tosco.

felipe frazão disse...

OBRIGADO POR ACOMPANHAR!

Lívia Estrella disse...

Na minha modesta e pretensiosa opinião, Frazão, acho que nós artistas estamos racionalizando demais a arte. Esse lance de "pensar" num engajamento, qualé! Ou nasce engajada, ou morre ali.
Deixa tentar explicar melhor: você quer fazer uma crítica sobre um assunto usando a arte. Certo. Então, se afunda nesse assunto e deixa nascer a partir dessa imersão. Isso acontece mais fácil quando você se desliga do turbilhão de informações a qual temos acesso.

Outra coisa é que a gente subestima demais o povo. Você não pode criar uma coisa mediana só porque acha que assim vai ser compreendido instantaneamente pelo 'povim'. Nós temos que fazer a parada (vou usar esse substantivo porque pode ser peça, música, livro, uarevá)da maneira mais profunda e orgânica que conseguirmos, ACREDITANDO que eles vão querer entender a mensagem.

Eu escrevi uns dois textos que falam sobre isso (aqui http://vai.la/JgF e aqui http://vai.la/JgH)

Ah, e quanto à política... nem comento... fui pro CONUNE ano passado e foi uma experiência decepcionante... Não tem jeito, brasileiro vota como se fosse torcedor de time de futebol: se meu time não tá jogando, então eu voto em algum outro que não seja o meu adversário, mesmo que esse time não tenha NADA A VER com o meu! (sou do psdb, se só tem pt ou psol, voto no psol! )
suspiro profundo.
vamo tê calma, então