domingo, 27 de fevereiro de 2011

Um dia eu tive uma banda

Ela era composta por quatro amigos e teve cerca de dois ensaios além de outros integrantes também que entravam num dia e saiam no outro. Tudo culpa dos nossos sonhos de época. Recordo tudo isso com um imenso prazer. A arte é, de fato, o verdadeiro e maior prazer que se possa ter de caráter efêmero.

Nesses dois ensaios, o compositor principal, talvez o único da história da banda, compôs duas músicas. Uma que eu, infelizmente, não me lembro da letra e outra que foi o verdadeiro hit dessa banda que se chamava Psicóticos, sem que ninguém tenha qualquer tipo de distúrbio.


Nossas influências? Também não me recordo ao certo. Mas sei que todo mundo gostava muito de música e ouvia muito rock. A verdade é que todo mundo tinha influências fortes, mas não fortemente determinadas, ou seja, na real cada um gostava mais de alguma coisa.

Todos nós fazíamos aula de algum instrumento. A formação original era a seguinte: Nichollas na bateria, Gabriel no contrabaixo, Rafael na guitarra solo e voz e eu na guitarra base e voz.


Os ensaios eram feitos na casa do baterista e tinha um cachorro que atrapalhava muito latindo toda hora. A mãe do baterista fazia lanches pros caras da banda com fome. O pai do baterista observava contente.

O baixista não falava muito, tinha uma expressão concentrada. Gostava bastante de blink 182, MxPx, Sum 41 e acho que um pouco de Good Charlotte. O solista gostava muito de heavy metal, punk rock e hardcore, acho. O batera acho que já curtia um The Strokes e foi ele quem me falou de The Hives, The Vines, The Beatles, The White Stripes, The...

Acho que eu gostava principalmente de rock brasileiro. Mas gostava de outras coisas também. Nossas duas letras eram bem diversas. A que eu não lembro tinha uma melodia bem lenta e foi feita para ganhar o público de massa. Já a segunda, que mostro logo abaixo, tinha um cunho que chamo de infanto-social (éramos quatro Ernestos de 12 anos, uns mais, outros menos), mas muito verdadeiro e sincero:

mauricinho do nariz empinado
vou te dar uma dica que vai te deixar pirado
esse procedimento vai te deixar legal
eu vou mandar pra eles é lavagem cerebral

lavagem cerebralllll
lavagem cerebralllll

deputado tudo ladrão
e no nosso dinheiro eles vão mete a mao
foda-se as leis do governo central
eu vou mandar pra eles é lavagem cerebral

paralisiaaaaaaa
moral e verbal
eu vou mandar pra eles é lavagem cerebral

paralisiaaaaaaa
moral e verbal
eu vou mandar pra eles é lavagem cerebral

o sangue da veia foi derramado
no fio da teia você foi enrolado
do nosso destino nao tem como fugir
o buraco da terra vai nos engolir
cadeira elétrica o governo não quis
só filhos da puta criando raiz

paralisiaaaaaaa
moral e verbal
eu vou mandar pra eles é lavagem cerebral

paralisiaaaaaaa
moral e verbal
eu vou mandar pra eles é lavagem cerebral


Não tenho tanta certeza da época disso tudo, me parece que foi no ensino fundamental II, aproximadamente 5ª ou 6ª série. Estudávamos no mesmo colégio e depois dessa banda vieram muitas outras de dois ensaios com outros amigos, como a C-27.

C-27 foi certamente um desdobramento da Psicóticos e sua formação era sem contrabaixo, sendo que dessa vez teve apenas um ensaio num estúdio do professor do baterista no bairro do Continental.

O nome veio do ônibus que pegávamos para ir até o estúdio, o Casa de Saúde 27. Eu era o vocal e fazia umas bases na guitarra. O solista era o Gianfrancesco, meu amigo de infância e o batera era o velho Nichollas. Lembro-me claramente da nossa maior influência nessa época: Dead Fish. Tocamos muitas vezes a mesma música, Me Ensina, dessa mesma banda.

Engraçado é refletir sobre o que viraram esses jovens. Cesco virou profissional da informática e tenho menos contato com ele do que gostaria. Gabriel mora no mesmo bairro que eu e talvez eu o veja umas duas vezes ao ano, sei que tem uma banda, mas dessa vez é banda séria. Também não tenho contato com Rafael, sei que ele estuda e tem uma banda séria também. O Nichollas é meu amigo de sempre, virou comunicólogo e para mim tem um caminho bonito como cronista e crítico musical. Eu não me afastei da música. Além de um bom e freqüente ouvinte, fiz alguns trabalhos musicais que me deram muito prazer e conhecimento. Apesar de, como uma ironia do destino, ter realizado trabalhos completamente diferentes do meu gênero de rock engajado daquela época: mergulhei de cabeça no universo do samba.

Descrever e discorrer sobre tantos detalhes da minha vida é muito desnecessário, muita pretensão. Mas me traz alegrias. Diferentemente da poesia, que não necessariamente faz parte do contexto da vida do autor, a prosa tem desse mal. Não o mal de trazer alegrias, o mal da pretensão. Pretensão que é confundida por todos, em minha opinião, como a objetividade da informação. Uma verdadeira mentira. Objetividade é outra coisa, e talvez ela nem exista, de fato. Mas mesmo assim, a gente continua fazendo prosa por aí.

Um comentário:

Nick disse...

Olha, quero ler isso aqui depois de mais alguns anos. Fantástico.